domingo, 28 de abril de 2013

A ERUPÇÃO DA MONTANHA PELADA - "NÃO SE BRINCA COM DEUS"



 
A Montanha Pelada em erupção (foto tirada de um navio)

Um artigo do pe. Nicolas Pinaud.

Traduzimos o seguinte artigo da revista “Sel de la Terre”(Couvent de La Haye-aux-Bonshommes 49240 – France), do seu nº 40. A tragédia aqui narrada é uma grande lição para os nossos tempos de impiedade e de indiferença. O desprezo da Verdadeira Religião nunca é sem conseqüências...

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Eis a narração do drama acontecido no dia 8 de maio de 1902 na Martinica (um arquipélago situado nas Antilhas que é parte da França Ultramarina, n.d.r.). A erupção da Montanha Pelada destruiu, num piscar de olhos, a cidade de São Pedro, provocando a morte de quase 40.000 dos 100.000 habitantes que contava a Martinica nessa data. Visitando as ruínas dessa cidade, nós imaginamos o que deve ter sido a violência do cataclisma.

Os partidários do PACS e de outras abominações modernas (aborto, etc.), ganhariam em meditar sobre esse acontecimento, já que o profeta Oséias escreveu há muito tempo: “Aquele que semeia ventos, colherá tempestades” (Os. 8,7); e, mais próximo de nós, São Paulo escrevia aos Gálatas: “Ninguém se engane: não se brinca com Deus” (Ga. 6,7).

Não pensemos que estas palavras estejam ultrapassadas porque Deus se cala. “A pena é deixada para depois porque Deus é bom - escreveu Joseph de Maistre na obra “As delongas da justiça divina”- mas ela é certa porque Deus é justo.”

Parece que estas verdades nos permitem compreender essa terrível catástrofe do dia 8 de maio de 1902.

Depois de ter visitado em São Pedro o pequeno museu que reúne algumas lembranças e fotografias da cidade após sua destruição, eu perguntei à jovem antilhana que me servia de guia, se os habitantes da Martinica não tinham visto nesse cataclisma um castigo. Sem hesitação, ela me respondeu que sim. Eu lhe perguntei então qual podia ser a causa dessa punição. Essa moça, de mais ou menos 30 anos, me disse que a religião era desprezada e seus ministros eram insultados, acrescentando que talvez um padre tivesse sido morto durante o carnaval precedente de 1902.

Sinais Premonitórios

 A Montanha Pelada é um maciço que ocupa o Noroeste da Martinica e cujo ponto culminante, o Morne La Croix , tinha, antes da erupção de 1902, 1350m de altitude.

Nesse lugar, 2 crateras “dormiam” desde séculos: o lago dos Palmistes, sobre a vertente do Atlântico, e o abismo chamado l’Étang Sec (o Lago Seco), em oposição ao lago que estava sempre cheio, situado sobre a outra vertente  desse mesmo cume. A cratera do Lago Seco tinha dado, no dia 5 de agosto de 1855, alguns ligeiros sinais de vida: jatos de fumaça e cinza foram lançados a uma distância de apenas 100m.

Em 1902, desde o mês de fevereiro, primeiro um forte odor de enxofre exalou-se em direção à cidadezinha de Rivière Blanche. As serpentes e os pássaros abandonaram os flancos da montanha. Bois e carneiros rompiam suas cordas quando eram levados a pastar nas encostas da montanha; frequentemente os cães uivavam durante a noite.

Algumas poucas fumaças apareceram um pouco abaixo do cume da montanha e, nos arredores, todos os objetos de prata se cobriam de uma fina camada azulada.

Esses fenômenos duraram até a sexta-feira 25 de abril. Nesse dia, entre as 7 e 8 horas da manhã, se ouviu uma detonação subterrânea, seguida imediatamente de um tremor de terra. Duas horas mais tarde, uma fina cinza azulada, com um forte odor de enxofre, começou a cair sobre a vila de Prêcheur. Durante a tarde, a terra tremeu de novo duas vezes.

Na segunda-feira, 28 de abril, ouviram-se estrondos sobre a montanha ao mesmo tempo que colunas de vapor saíam dela. O curso d’água do ribeirão Blanche chegou a triplicar seu volume normal.

Em São Pedro da Martinica, na véspera, se realizava o primeiro turno das eleições legislativas, que eram particularmente disputadas. As paixões estavam superexcitadas e a febre política ocupava mais os espíritos que a insólita enchente do ribeirão vizinho, ou a presença ameaçante de algumas nuvens de cinza que, de resto, não tinham ainda atingido São Pedro. Os resultados do primeiro turno prometiam a vitória dos “republicanos”. As pessoas de idade se lembravam sem dúvida desses fenômenos aparecidos 51 anos antes. A Montanha expeliu cinza que não causou nenhum estrago, e depois ela adormeceu sem mais problemas.

No  Les Colonies, o maior jornal socialista de São Pedro, M. Hurard, seu diretor anti-clerical, escrevia:

Para nós, habitantes da Martinica, o mês de abril foi duplamente trágico. Nós vimos duas erupções: a primeira nos espíritos, a outra na Montanha Pelada; uma eleitoral, a outra física; uma feita de discursos, de propaganda, de rum, de dinheiro e de votos; a outra de fumaça e de cinza... Que a Montanha se contente de esfumaçar e de soltar cinza! Mas, por Deus! Que ela não se ponha a tremer! Pois os corações tremeriam e dançariam também... Esta cinza é para nós um poema; esse poema já foi feito na nossa imaginação e, se o escrevêssemos, ele seria intitulado: A Cinza do Vulcão. E que chamas nós faríamos jorrar dessa cinza!...A Montanha Pelada, vendo que os bons costumes desapareciam, quis simplesmente nos dar para comer um peixe de abril. Amável abril! Como você vai dormir, durma bem! Bem-vindo maio!

O mês de maio começou num espetáculo de desolação. A paisagem estava coberta de cinza, nem um pássaro nas árvores, nenhum ruído. De vez em quando, um estalar seco anunciava a queda de um ramo, vencido pelo peso da cinza. Enormes colunas de cinza saíam da montanha.

No dia 2 de maio, durante a manhã, os estrondos se multiplicaram e, mais ou menos às 16 horas, uma coluna de vapor negro escuro, inchada, sulcada por clarões, aparecia no cume. A cinza continuava a cair e, pela primeira vez, São Pedro foi recoberto de cinzas.

Na noite de 2 para 3 de maio, os habitantes do Morne Rouge foram despertados no meio da noite por uma espécie de canhonada subterrânea,  um tremor de terra e uma terrível explosão , tudo isso acompanhado de uma espécie de ronco contínuo, semelhante ao rugido do leão. Todo mundo saiu de suas casas. A Montanha estava coroada de clarões que saíam da cratera. O pânico se apoderou dos moradores, que se precipitaram em direção à igreja; os confessionários foram “tomados de assalto”. A multidão permaneceu ali até a manhã, esperando a morte.

Debaixo de uma chuva de cinzas que espalhavam um forte odor de enxofre, nos diz Mons. Parel, eu quis visitar Sainte Philomène, le Prêcheur, le Morne Rouge, que são a localidades mais próximas do vulcão. Essas três vilas estavam cheias de habitantes do campo, que fugiam das alturas da Montanha em direção ao litoral. As igrejas, abertas desde a véspera, estavam sempre cheias. Os padres não cessavam de batizar, de confessar e de sustentar a coragem do povo aterrorizado.

No dia 3 de maio, o governador Louis Mouttet deixou Fort-de-France (a capital da Martinica, n.d.r.) para examinar por si mesmo a situação. Ele voltou no mesmo dia à tarde, tranqüilizado pelas informações recebidas: o vulcão não tinha entrado em atividade desde já meio-século, não havia, portanto, motivo para se alarmar demais!

A “Sociedade de Ginástica” de São Pedro, que tinha organizado para o domingo seguinte uma grande excursão sobre a Montanha, refrescava assim, na imprensa, a memória de seus membros:

Aqueles que jamais desfrutaram do panorama magnífico que se oferece ao olhar do espectador maravilhado, a 1300m de altitude, aqueles que desejam ver a abertura escancarada pela qual, nesses últimos dias, saíram fumaças espessas que aterrorizaram os corações dos habitantes das povoações vizinhas, eles deverão aproveitar essa bela ocasião. Portanto, se o tempo for bom, os excursionistas passarão um dia do qual eles guardarão por muito tempo uma agradável lembrança ...

A curiosidade e o entusiasmo dos voluntários foram esfriados depois da erupção ocorrida durante a noite. A excursão foi adiada sine die. O domingo, 4 de maio, foi relativamente calmo.

Na segunda-feira, 5 de maio, mais ou menos às 12:30 hs, um rio de lama negra incandescente, com uma dezena de metros de altura, saiu da cratera e como uma avalanche, num piscar de olhos, desceu da Montanha e cobriu a Fábrica de rum Guérin, as casas dos proprietários e pavilhões dos empregados. Somente a chaminé da usina, como um mastro de um navio que afunda, ficou visível algumas horas no meio dessa maré de lama que engoliu 150 pessoas.

No mesmo momento em que ocorria essa avalanche, no ancoradouro de São Pedro, o mar se retirou, como se estivesse espantado. Depois, de repente, as ondas voltaram como montanhas, e invadiram a cidade espalhando nela a consternação. Os habitantes começaram a fugir para os lugares mais altos, mas vinte minutos mais tarde tudo voltou ao normal.

Então a emoção subiu ao máximo. Algumas famílias partiram para a ilha de Santa Lúcia, muitos outros para outras povoações onde parentes e amigos podiam recebê-los provisoriamente...

As autoridades então se aplicaram a tranqüilizar a população! A pedido expresso do prefeito, o governador Mouttet e o coronel Gerbault, acompanhados de suas esposas, vieram e ficaram em São Pedro a partir de 6 de maio, o que lhes custará a vida. A “Comissão científica” nomeada pelo governador declarou, na véspera do desastre, no começo da noite, através de toda a cidade de São Pedro e ao som do tambor, “que a posição relativa das crateras e dos vales que desembocam no mar permite afirmar que a segurança da cidade de São Pedro é absoluta.”

E esta consulta solene foi afixada em Fort-de-France 3 horas depois do desastre! O Criador faz pouco da ciência dos homens. A Deus somente pertence o futuro.

Na tarde desse mesmo dia, 7 de maio, o capitão de um barco italiano parado no ancoradouro foi melhor inspirado; ele foi procurar com urgência seus papéis com o seu consignatário, que lhe disse para voltar no outro dia: “Pois bem, eu dispenso os papéis! – respondeu ele, e mostrando a Montanha Pelada, acrescentou: “Se na Itália nós víssemos o Vesúvio esfumaçar tão fortemente, todo mundo se apressaria em fugir!” No dia seguinte, os 400 barcos ancorados no porto estavam todos, à exceção de um só, incendiados e submergidos.

O jornal Les Colonies, no seu número da quarta-feira 7 de maio, o último, aquele que devia fechar sua carreira, noticiava: “(...) A emigração de São Pedro continua a se intensificar... os vapores da companhia Girard estão sempre cheios. A média de viajantes na linha de Fort-de-France, que era de 80 passageiros por dia, aumentou para 300 por dia de três dias para cá. Nós confessamos não compreender o porque desse pânico. Onde se pode estar mais seguro que em São Pedro?”

Apesar de todos esses belos discursos, escreve uma testemunha, muitos tinham medo, e se viu com terror a chegada da noite. Para aumentar a apreensão, a cidade inteira mergulhou nas trevas, pois que a energia elétrica apagou-se por causa dos fenômenos magnéticos provenientes do vulcão.

Estamos a algumas horas da catástrofe. Depois de tantos sinais premonitórios (tremor de terra, chuva de cinzas e de grafite, odor de enxofre, aquecimento das águas dos ribeirões, água do lago dos Palmistes subitamente desaparecida, destruição da usina Guérin...), parece espantoso que os habitantes de São Pedro não tivessem tido uma idéia mais justa do perigo que lhes ameaçava. A Montanha não cessava de dar as mais significativas advertências.

Porque não se evacuou a cidade?


É difícil, disse uma testemunha, responder por todos, pois cada um reagia segundo o seu próprio temperamento. Muitos sem dúvida esperavam que se o vulcão se enfurecesse em extremo, eles teriam tempo de fugir das lavas. Outros pensavam  que a expulsão desse imenso rio de lama tinha aliviado o vulcão, e que a crise tinha passado. Alguns, temendo uma grande invasão da água do mar (raz-de-marée), preferiam ir para os lugares mais altos. A erupção da ilha de Krakatoa era a causa desse medo: o vulcão Sonde tinha explodido como uma bomba gigantesca provocando um grande “raz-de-marée”.

Abandonar a própria casa era se expor seguramente à pilhagem e se expor à ruína. O número de filhos, as pessoas para cuidar, os enfermos, os doentes, foram certamente para um bom número um obstáculo à fuga. É exagerado pensar que o espetáculo impressionante desse monstro encolerizado provocava uma espécie de fascinação? Isto não é impossível.

Enfim, as eleições que continuavam a esquentar os ânimos na ilha, tinham feito nesse ano a “temperatura social” se elevar a graus jamais antes atingidos. O segundo turno da eleição devia se realizar no dia 11 de maio. Para que houvesse eleitores, o povo devia permanecer ali, convinha então tranqüilizá-lo, e o relatório da comissão científica certamente contribuiu para isto!

A Catástrofe


No dia 8 de maio de 1902, depois de uma noite de tormenta, de roncos surdos, São Pedro despertou tarde nesse dia da Ascensão. Espessas nuvens negras, opacas, escureciam o céu.

O vapor “Rubis” que deixava o porto às 6:30 hs em direção à Fort-de-France, foi tomado de assalto por numerosos viajantes. Ele foi literalmente invadido por grupos de pessoas que se agarravam em todas as partes do navio. Muitos habitantes, aterrorizados pela noite que atinham acabado de passar, se tinham resolvido a partir.

Os carrilhões tocaram todos os sinos chamando os fiéis aos primeiros ofícios do dia da Ascensão.

De repente, se ouviu uma explosão terrível. Eram 7:50hs; foi a hora fatal que ficou inscrita no relógio encontrado no hospital mantido pelos Padres de São João de Deus. Um ruído, comparável ao de centenas de sirenes de navios tocando ao mesmo tempo, encheu o ar, e uma nuvem de fumaça, inchada, espessa, negra, sulcada de clarões, escapou do vulcão entreaberto e, num piscar de olhos, se precipitou sobre a cidade, a cobriu, sufocou, abrasou, rolou sobre o mar, e depois, se dilatando em todos os sentidos, cresceu como uma montanha de cinza e de fogo.

Depois de ultrapassar a cidade, a nuvem parou subitamente, repelida por um violento vento contrário. Então se pôde perceber a cidade: uma fumaça opaca cobria a infeliz cidade com o seu véu negro e impenetrável de onde jorravam, a intervalos, milhares de flamas.

Na hora fatal, o receptor de telefone de Fort-de-France, M.Lodéon, estava desde alguns instantes conversando com o seu colega de São Pedro, quando este se calou bruscamente no meio de uma palavra inacabada. Enquanto que todas as sirenes apitavam, M. Lodéon sentiu um violento tremor elétrico e percebeu um estertor de agonia e como o ruído de um vasto desmoronamento. E, é claro, a ligação se interrompeu.

A destruição tinha se completado. 70 segundos bastaram para varrer a cidade de São Pedro da Martinica do mapa. Então, uma chuva de cinza fina cobriu o drama como uma mortalha. Da cidade só restava um braseiro, paredes despedaçadas e calcinadas, um monte indescritível de entulho e de árvores carbonizadas. Dos 40.000 habitantes que presenciaram o drama, nem um escapou; eles foram queimados, asfixiados, fulminados, eletrocutados num instante.
 
São Pedro da Martinica depois da catástrofe. 


As fotografias da cidade destruída nos fazem imediatamente pensar nas fotos de Hiroshima, destruída pela bomba atômica. São Pedro dá a impressão de ter sido destruída por um gigantesco sopro: a estátua de Notre-Dame-de Bon-Port, protetora dos marinheiros, foi encontrada a uma dezena de metros do seu pedestal. Ela pesava 5 toneladas e estava situada a 5 km da cratera!

Um sino da catedral foi consideravelmente deformado pelo efeito do calor. Exposto no museu do vulcão, ele é talvez a lembrança mais impressionante e que mais ajuda a fazer uma idéia da potência do cataclisma; esse sino pesa uma tonelada e parece ter sido comprimido por um “punho de ferro”!

Apenas 1 dos 400 barcos ancorados no momento do cataclisma, o Roddam, escapou ao desastre. Temos a narração feita por um de seus passageiros:

Quando a coluna de fogo e de lavas se abateu sobre a cidade, um imenso clamor se elevou; gritos de desespero e angústia. Esse clamor lúgubre e pungente foi tal, que ultrapassou em potência o ruído das ondas e o roncar do vulcão. Vimos uma multidão se precipitar para a praia. Mas os infelizes não corriam muito tempo, naquele fogo que os envolvia. Eles caíam como moscas, e os que chegaram até a beira do mar onde eles pensavam encontrar a salvação, foram de uma só vez engolidos por uma imensa lama que os arrastou. Além disso, as ondas se tinham tornado ferventes, e as pobres vítimas foram queimadas antes mesmo de se afogarem.

O barco foi recoberto com 10 toneladas de cinza incandescente, apesar da distância que o separava da praia. Ele chegou a Santa Lúcia num estado dos mais lamentáveis, a bordo só havia mortos e moribundos, ninguém sobreviveu às queimaduras sofridas.


A ERUPÇÃO DA MONTANHA PELADA (2ª PARTE)

 Publicamos a tradução da segunda parte do artigo do Pe. Nicolas Pinaud sobre a tragédia que se abateu sobre a cidade de São Pedro da Martinica no início do século XX (tirado da revista Sel de la Terre, publicada pelos frades dominicanos de Avrillé) . Constataremos agora porque se pode afirmar que essa catástrofe é um verdadeiro castigo de Deus à profanação dos homens ímpios e à indiferenças dos fiéis.

Ruínas da cidade de São Pedro da Martinica após a erupção. 


Porque o drama de 8 de maio de 1902 é um castigo?


Recentemente, o filme Titanic suscitou muitos artigos da imprensa. Mas jamais se fez menção das inscrições blasfemas feitas sobre seu casco durante sua construção: nem se menciona que sua destruição, antes mesmo de terminar sua primeira viagem, poderia ser uma resposta divina aos ataques dos homens. Da mesma forma, no que diz respeito à erupção de 1902, não se encontrará menção desta possível explicação em nenhum trabalho recente, em nenhum guia turístico, mas ela persiste no coração dos antigos, e os mais novos ouviram falar dela, como essa antilhana que me fazia visitar o museu do vulcão ...

A espada de fogo
Durante o ano que precedeu a catástrofe relatada, ocorreram no convento do Livramento presságios sinistros, sinais espantosos, pressentimentos, dolorosas intuições.

Nove meses antes da erupção, duas Irmãs que residiam em São Pedro, no mesmo dia, ainda que encontrando-se em lugares diferentes, viram uma espada de fogo pairar sobre a cidade, como que retida por uma mão invisível. Espantadas, perguntavam-se, cada uma de seu lado, o que isto poderia significar... Consternadas, elas guardaram seu segredo até a hora da recreação. Então uma delas disse à suas Irmãs reunidas: “Oh! Eu vi uma coisa extraordinária e espantosa!” A segunda religiosa, testemunha do prodígio, respondeu-lhe: “Irmã, é impossível que a senhora tenha visto algo de mais espantoso e extraordinário do que o que eu vi.” Diante da insistência das outras Irmãs que pediam explicação, elas fizeram a mesma declaração: visão muito clara de uma espada de fogo que pairava sobre a cidade de São Pedro.

Na mesma época, um fato extraordinário aconteceu no Morne Rouge, numa outra casa da mesma comunidade religiosa. Durante vários dias seguidos, “uma de minhas Irmãs e eu, - relata Ir. Margarida-Maria - nós encontramos as cortinas de nossos leitos cobertas de grandes manchas vermelhas semelhantes a sangue. As cortinas foram renovadas três vezes e, cada vez, o mesmo fenômeno se reproduzia: sobretudo um leito tinha as cortinas particularmente atingidas.” Estupefação na comunidade. “Que significa esse fato estranho? - diziam entre si as religiosas - talvez seja um anúncio de martírio.” “Quanto a mim, pensando nos progressos da perseguição religiosa, eu vi nisso um presságio de massacre ...”

Também no Convento do Livramento de Morne Rouge, durante os três meses que precederam o cataclisma, ouvia-se à noite, nos grandes corredores, soluços, suspiros e orações; durante o carnaval. Esses fatos se produziram mesmo durante o dia, ruídos de soluços eram percebidos em vários pontos do convento. Na terça-feira do Carnaval, no momento em que a comunidade confessava suas culpas na igreja, a Rev. madre superiora, retida por casa de doença na sala da comunidade, ouviu um choro na porta. O ruído foi tão forte que ela enviou uma religiosa que cuidava dela a ver se não havia alguém no corredor... Mas a religiosa não encontrou ninguém.

Contam-se ainda outros fatos misteriosos: uma imagem de Nossa Senhora de Lourdes, cuja fisionomia sorridente mudou repentinamente para exprimir uma grande tristeza, ruídos de pratos quebrados num convento de religiosas, uma lâmpada que estremeceu.

Um castigo... Para punir qual crime?


A esta questão, a jovem que nos guiava nesse pequeno museu, de que eu lhes falei, não me respondeu dizendo: - “para punir os brancos por causa da escravidão...”, cuja festa da abolição se comemora nesse ano o 150º aniversário. - ou: “para punir os costumes relaxados”. É verdade que as uniões ilegítimas eram de longe as mais numerosas, e que a rua das prostitutas era muito freqüentada. O último mandamento do bispo D. Cormont era um apelo insistente a seus diocesanos para os exortar a regularizar as uniões ilegítimas e a respeitar as leis do casamento. Não, ela mencionou sem hesitar os pecados contra a religião.

Citemos a obra de Louis Garaud, Três anos na Martinica:

(...) Jamais as Saturnais em Roma, nem os Bacanais na Grécia, ofereceram um semelhante espetáculo; nem a festa dos loucos, na Idade Média, ostentou tamanho desvario de alegria. A imaginação não pode conceber semelhantes loucuras, um delírio tão envolvente ...

São Pedro, classificada como 101º cidade da França pelo seu luxo e conforto, desenvolvia todos os vícios que a moleza pode gerar. A Fé não era somente objeto de indiferença, ela era desprezada e insultada publicamente por um pequeno número, ao menos sob a instigação da loja maçônica de São Pedro, que era poderosa e muito ativa. O carnaval, que toma proporções inimagináveis nas Antilhas, se dedicou naquele ano a atacar a religião. Os participantes, disfarçados de religiosos ou religiosas, zombavam da religião. Algumas testemunhas afirmam que D. Cormont teve que encurtar a procissão de Corpus Christi precedente em razão dos insultos e das pedras que o cortejo recebia!

D. Cormont teve mesmo que deixar a Martinica alguns meses antes da catástrofe a fim de acalmar os espíritos. Com efeito, uma polêmica muito viva se tinha levantado devido ao fato que ele queria conceder uma promoção a um de seus sobrinhos que era padre, quando um mais antigo disputava o lugar... cada um deles tinha os seus partidários!

Na sua partida, algumas pessoas, estimuladas pela Maçonaria, tinham-lhe jogado pedras. D. Cormont se voltou para elas dizendo: “Os senhores nos lançam pedras, o vulcão as devolverá.” Estávamos no dia 10 de abril!

No seu livro Peregrinação fúnebre às ruínas de São Pedro, U. Moerens escreveu, na pág. 60:

Uma imprensa excessivamente violenta e ímpia se esforça em descristianizar este infeliz país. Com uma visão estreita e intolerante, aqueles que assumiram a missão de dirigir a opinião pública não cessam, sob qualquer pretexto, de espalhar a blasfêmia e de desprezar tudo o que há de mais respeitável e de mais sagrado.

Essa obra sectária produzia seus frutos. Mas é verossímil que foi a ignóbil profanação da Sexta-Feira Santa, 28 de março de 1902 que provocou a cólera de Deus.

Apoiada pelo testemunho de um dos habitantes da Martinica, essa notícia apareceu sob o título “Cristo no vulcão”, no dia 5 de setembro de 1902, num dos maiores jornais parisienses:

No dia 28 de março último: Sexta-Feira Santa. Nossa alegre cidade colonial se desperta nessa manhã tão calma, tão cheia de frescor, característica das manhãs tropicais. Atrás das varandas entreabertas, se pode perceber as donas-de-casa que se apressam a pôr tudo em ordem a fim de se dirigirem às igrejas. O sol se levanta docemente no horizonte. A hora do almoço chega e cada um vai romper o jejum, mas somente com um leve prato “à moda crioula”: bacalhau com arroz. Entretanto, um grupo barulhento se dirige para um dos principais hotéis da cidade onde uma festa está preparada. São os representantes do livre-pensamento, que, para provar sua independência de espírito, vão comer com fanfarronada os alimentos mais gordos que eles podem inventar, para se contrapor assim à abstinência universal. Numerosas garrafas são abertas e rapidamente esvaziadas; e, quando esse bando diabólico está suficientemente embriagado, ele se põe a percorrer as ruas da pequena capital a vociferar nomes imundos e a ridicularizar a imagem de Cristo que eles trouxeram consigo.Ei-los em pouco tempo fora da cidade, no caminho que leva à montanha. Diante deles, a montanha se eleva majestosa, destacando o seu cume recortado sobre o azul do céu, e catorze vezes, no meio de blasfêmias infames, esse grupo para, fazendo estações para parodiar a Via-Sacra e desprezar as cenas da Paixão que a Igreja canta nesse momento de maneira tão dolorosa. Eles sobem, sobem, cada vez mais agitados, inventando a cada passo as mais horríveis blasfêmias. Por fim, ei-los no cume... Eles contornam o lago de águas tranqüilas, chegam junto à boca escancarada do vulcão e lá, no meio de uma dança infernal, uivando e gesticulando, eles precipitam no fundo do abismo a imagem daquele que, há dezenove séculos morreu na cruz para resgatar as almas desses criminosos. No dia da Ascensão, entre os estertores dos mortos e gritos de espanto, o vulcão respondia aos que tinham insultado Jesus Cristo, fazendo a cruz subir de novo aos céus.

Com efeito, nesse ano de 1902, a quinta-feira, 8 de maio, caía no dia da Ascensão... Acaso?

Evidentemente, os livre-pensadores não tinham nenhum interesse em que esta história fosse conhecida. Ela foi considerada como uma fábula, uma invenção dos católicos e, hoje, ela nunca é citada.

Verdade ou Fantasia?

Esse triste acontecimento foi autenticado por Melânia, a menina que viu Nossa Senhora em La Salette, à qual o Pe. Combe interrogará a respeito dessa catástrofe.
- A senhora já sabia há muito tempo que essa catástrofe aconteceria?
- Sim [respondeu Melânia].
- Sabia disso através da aparição de 1846?
- Não [respondeu ela].
É necessário arrancar-lhe tudo [retoma o Pe. Combe], e ainda assim ela só responde com um sim ou com um não.
- Você viu a erupção. Então, fale.
- Ah, padre, eu estava no meio dela.

Na sexta-feira 16 de maio de 1902, o Pe. Combe escreve :

Eu percebi, embaixo de seu fogareiro, entre os papéis para queimar, uma carta de anúncio de falecimento de Madame X, viúva, no verso da qual Melânia tinha escrito no tempo futuro os próximos castigos que se abateriam sobre a Martinica: “Nós não o roubamos, mas o compramos e o arrancamos da mão de Deus. Ele não vai se contentar de advertir uma só vez suas amadas criaturas que Ele tanto ama, nem duas, e mesmo quando sua justiça pede à sua glória para vingar à sua misericórdia ultrajada, esse bom Divino Mestre adverte, mas como que ocultando isto à sua justiça. Ele faz sentir docemente alguns tremores de terra incomuns. É assim que ele vai fazer nessas pequenas Antilhas Francesas. Durante mais de seis dias, haverá pequenos tremores intercalados por outros um pouco maiores. Mas ai! Os homens têm ouvidos mas não ouvem. Por fim, no dia 8 de maio de 1902, o fogo devorador cai sobre uma das principais cidades da Martinica: São Pedro, a devora e a cobre de cinzas e de ruínas de toda espécie. Além da destruição dessa cidade, três outros lugares serão atingidos pelo mesmo fogo com vítimas, sem contar os danos nas propriedades. O fogo não se terá acalmado inteiramente na sua caverna. 12 dias depois do primeiro cataclisma, Fort-de-France chorará e muitos outros chorarão também”
- Esta meditação, a senhora a escreveu no dia 8, antes da erupção [lhe pergunta o pe. Combe]? Até aqui só a cidade de São Pedro foi destruída, já se fala de 30.000 vítimas.- Há 40.000 [responde Melânia].- Como a senhora viu por antecipação a destruição de são Pedro? Poderia me dizer o nome desses lugares que terão a mesma sorte? [pergunta o Pe. Combe].- Curbet ou Curba, é um nome mais ou menos assim [responde Melânia].

Por ocasião de uma nova catástrofe que causou mil vítimas, os jornais (Le Pèlerin de 14 de setembro de 1902) deram para a catástrofe de maio, depois de uma pesquisa feita nos lugares atingidos, a cifra de 40.000 mortos.

No dia 22 de maio, o Pe. Combe anota:

Eu desejava uma previsão cuja anterioridade fosse para mim materialmente certa, e eis que eu fui atendido. Notícia chegada nessa manhã: “Cabogramas oficiais sobre a erupção dos dias 19 e 20 de maio são bem sucintos, mas já se sabe que uma vila: Le Carbet, situada sobre a costa a alguns kilômetros de São Pedro, foi parcialmente destruída”.
Eu lhe perguntei:- Que crimes espantosos, além da impureza, puderam atrair, sobre essas populações, consideradas muito católicas, semelhante tragédia?Ela me contou que, “na última Sexta-Feira Santa, um grande crucifixo de mais de um metro foi arrastado nas ruas de São Pedro com uma corda, e em seguida na subida de uma montanha e, chegado junto a uma cratera, foi precipitado lá dentro.”- Para atrair a maldição de Deus sobre todo o lugar, esse sacrilégio foi portanto perpetrado por uma multidão de homens e mulheres? [pergunta o Pe. Combe].- Não, somente alguns [explicou Melânia], no entanto se lhes deixou agir e uma dúzia de meninos os seguia. A montanha rachou no mesmo lado na manhã da Ascensão. Como Deus pode punir dessa maneira? Considere. É a justiça? Nos tempos de verdadeira fé houve também profanações. A diferença é que as profanações eram denunciadas, e alguns foram pesadamente condenados pelo poder civil; outros foram castigados de maneira miraculosa. No caso da Martinica, a profanação foi pública, se deixou fazer; os meninos seguiam; entre a Sexta-Feira Santa e a quinta feira da Ascensão ouviu-se dizer que foram feitas preces de reparação ou que o clero organizou procissões, penitências públicas que teriam desarmado a cólera de Deus? (ver: “A Aparição da Santíssima Virgem”, de M. H. Bourgeois – cassette audio nº 4b)

Depois da destruição de São Pedro, foram necessários dois dias antes que se pudesse por os pés sobre a cinza fervente que cobria o solo da cidade destruída. (Isto torna muito difícil a sobrevivência de um prisioneiro na sua cela, como afirmou de Cyparis, que o circo Barnum mostrou em espetáculo durante anos, como um sobrevivente de São Pedro).

Um detalhe contado por um dos primeiros que se aventuraram a entrar na cidade parece confirmar que o cataclisma foi um castigo pela impiedade.

No meio de um caos de ruínas, eles não conseguiram mais reconhecer a geografia da cidade, que lhes era, no entanto, bem familiar. Por toda parte se amontoavam cadáveres carbonizados, putrefactos, espalhando um odor insuportável que viciava a atmosfera... Na catedral, um confessionário ficou lá em pé, intacto. Perto dali, num pedaço de parede, um cartaz tinha sido apenas lambido pelas chamas enquanto que outros tinham sido completamente carbonizados: “Jesus Cristo no pelourinho! A Virgem na estrebaria!”, dizia a espantosa inscrição, pois o espetáculo que se oferecia aos olhares bem parecia uma resposta a esta blasfêmia.

Uma coluna de 300 metros de altura permaneceu fixada no cume do vulcão durante muitos anos. Com o tempo, ela se enfraqueceu e desapareceu. À noite, ela se tornava “incandescente”, o que era impressionante. Não era isto o dedo de Deus mostrando a justiça divina: “Aquele que semeia ventos, colhe tempestade?”
No dia 16 e no dia 20 de maio, novas erupções fizeram novas vítimas: curiosos e, sobretudo ladrões que vinham como abutres para despojar os cadáveres de seus bens. Depois de 20 de maio, encontrar-se-ão mortos deitados sobre um saco de prataria que eles se preparavam para levar; um outro foi encontrado sobre um cadáver ao qual ele parecia estar arrancando uma jóia!...

A erupção do dia 20 de maio, que foi muito forte, teve um efeito sanitário. Ela sepultou os cadáveres, evitando assim o desenvolvimento de epidemias.

A última erupção devastadora foi a de 30 de agosto de 1902, que destruiu a cidade vizinha de Morne Rouge, provocando a morte de 2.000 pessoas. A igreja foi totalmente destruída, mas, no meio da ruína, os sobreviventes encontraram, um pouco enegrecida, a imagem de Nossa Senhora do Livramento, conservada milagrosamente. Ela permaneceu de pé e intacta sobre o seu pedestal que não foi abalado.

Desde então, os habitantes da Martinica fazem, no dia 30 de agosto, uma grande procissão em honra de sua padroeira.

Na tormenta, olhe para a estrela, invoque Maria.

Outro detalhe de São Pedro da Martinica depois da erupção.

 

FIM

sábado, 27 de abril de 2013

A pororoca que desemboca no Tejo


A pororoca que desemboca no Tejo



Em seu Fado Tropical, o cantor e compositor Chico Buarque cria uma interessante figura de linguagem para ilustrar os profundos laços existentes entre Brasil e Portugal. Por esse motivo, Mundividência decidiu parafraseá-la no título deste post com o intuito de homenagear o contingente lusitano que tem lido os humildes escritos aqui publicados, transformando este blog em uma nascente cá no Aquém-Mar cujas águas serpenteiam nos Sargaços e em Funchal antes de chegarem ao Tejo.

A julgar pelas estatísticas que o Blogger disponibiliza, o post O Brasil não foi colônia? suscitou particular interesse nos leitores. Ainda acerca da profusão de inverdades históricas que distanciam (politicamente) os portugueses americanos dos portugueses europeus, com as implicações deletérias para a geopolítica da quase residual Cristandade que isso acarreta, sugere-se a leitura a seguir do blog O Gládio (ver aqui).

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No último texto d'O Gládio aqui indicado, alude-se ao desmonte do império pluricontinental e multiétnico luso-brasileiro que se formava. Sabotado pela Grã-Bretanha no século XIX, e liquidado em seu remanescente lusitano pelo comunismo internacional nas guerras de "descolonização", o pulmão europeu do império nascente acabou fenecendo e se tornando uma reles província sob o comando da casta dos euroburocratas de Bruxelas. O saque promovido pelos soviéticos ao ramo português do império abortado foi muito bem registrado pelo brasileiro Pedro Alberto Marangoni em seu livro A Opção Pela Espada. Nele, o ex-cadete da Força Aérea Brasileira descreve com riqueza de detalhes as lutas que travou em solo africano, sempre combatendo as guerrilhas marxistas. Com a experiência que obteve em lugares como Angola, Rodésia e Moçambique, ele anteviu já nos anos 70 o que muitos teimavam em não enxergar (leia-se Comitê de Descolonização da ONU): que a "libertação" dos países africanos significaria entregá-los em uma bandeja de prata ao bloco comunista.

Infelizmente, não só Portugal foi açoitado pelo flagelo do comunismo. Também o Brasil, promissor pulmão americano do império abortado, tem sido minado desde dentro pelos agentes do Foro de São Paulo, de modo a não opor maiores resistências ao projeto de fundi-lo a uma bizarra federação latino-americana de repúblicas comunistas. Os valores são sistematicamente corrompidosa educação é desmantelada em todos os níveisas finanças são arruinadas, a soberania é enfraquecidao poderio militar é sabotadoo crime é tolerado e até recompensado. Assim, o Brasil agoniza sem saber que o faz, enquanto alegremente se deixa ser pilhado por aqueles que tem como seus benfeitores.


* * * * * 

Há várias cidades brasileiras que ainda conservam muito do patrimônio cultural português. É o caso da cidade de Goiás, outrora capital do estado homônimo. O antigo Arraial de Vila Boa, hoje Goiás, carrega a arquitetura lusitana, bem como tradições folclóricas tais quais as cavalhadas, que remetem às pelejas entre mouros e cristãos na Península Ibérica. O cantor Pádua faz uma bonita homenagem ao que há de mais luso na alma de Goiás com seu Fado de Vila Boa:




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Como amor com amor se paga, e alma portuguesa sabe ser especialmente atenta a tudo e a todos que cativa, o coral da Basílica de Mogofores interpretou com muita competência a canção que é uma espécie de hino informal do estado de Goiás. Com vocês, Noites Goianas:





Tão meigas, tão claras,
Tão belas, tão puras
Por certo não há

São noites de trovas
De beijos de juras (bis)
As noites de cá

As noites goianas
São belas, são lindas
Não temem rivais 

Goianos, traduzem
Doçuras infindas (bis) 
As noites que amais

Em Nice, em Lisboa
Na Itália famosa
Tais noites não há 

São noites somente
Da pátria formosa (bis)
Do índio Goyá

A religião do amor e o Credo Atanasiano


(Do blog Spem in Alium)





“Podemos colocar o caso da seguinte forma: se há uma questão que os liberais e esclarecidos costumam ridicularizar e exibir como exemplo de dogma estéril e briga sectária sem sentido algum, essa questão é a idéia atanasiana da coeternidade do Filho de Deus. Em contrapartida, se há alguma coisa que os mesmos liberais sempre nos apresentam como um fragmento do cristianismo puro e simples, não perturbado por disputas doutrinais, essa coisa é a frase singular “Deus é amor”. E no entanto as duas afirmações são quase idênticas: pelo menos uma é quase absurda sem a outra. O estéril dogma é apenas a maneira lógica de declarar o belo sentimento. Pois se existe um ser sem um começo, existente antes de todas as coisas, estava ele amando quando nada havia para ser amado? Se através dessa inimaginável eternidade ele está só, qual o significado de dizer que ele é amor? A única justificativa de um mistério como esse é a concepção mística de que em sua própria natureza havia algo análogo à auto-expressão, algo daquilo que gera e contempla o que foi gerado. Sem alguma idéia semelhante, é de fato ilógico complicar a última essência da deidade com uma idéia de amor. Se os modernos de fato quiserem uma simples religião do amor, eles precisam ir procurá-la no Credo Atanasiano.”

(Gilbert Keith Chesterton, The Everlasting Man)

Tradução de Almiro Pisetta

Santíssima Trindade, a Única Religião Monoteísta



(De Veritas Liberabit Vos)
Monseñor Antonio de Castro Mayer



Recién en el siglo XIV, el Papa Juan XXII, introdujo en el calendario romano la fiesta especial de la Santísima Trinidad.

Ello se explica porque, en realidad, todo domingo es el Día del Señor y el Señor es el Dios Uno y Trino.Pero se explica también que haya una fiesta especial de la Santísima Trinidad, porque el misterio más augusto del Cristianismo debe destacarse en el Año Litúrgico, con un día consagrado a una singular profesión de Fe, solemne y humilde, de la Iglesia y de todos los fieles.

Esta fiesta está bien situada al término del ciclo litúrgico soteriológico de nuestra salvación, pues, como ingresamos en la vía de salvación por el Bautismo recibido en nombre del Padre y del Hijo y del Espíritu Santo, así al ingresar a la vida eterna, nos despedimos de esta tierra en nombre del Padre y del Hijo y del Espíritu Santo: “Parte, oh alma cristiana —dice la Liturgia— de este mundo en el nombre del Padre y del Hijo y del Espíritu Santo”.

Dios es misterio. Dios debe ser misterio porque debe superar la capacidad natural del conocimiento humano.

Por otro lado, nos compete percibir en las perfecciones creadas los reflejos de las perfecciones infinitas de Dios. Ahora bien, entre las perfecciones de las criaturas, hay algunas —y de las más nobles— que sólo existen por relación con otras. Tal es el caso de la paternidad.

Sólo hay padre donde hay hijo. ¿Vamos a decir ahora que en Dios nada hay de esta amable y aun inefable prerrogativa de Padre? Sería absurdo. No se puede pensar.

Pero si en Dios hay Padre, debe haber Hijo. Y si hay Padre e Hijo, debe entre ellos correr un efluvio de amor indecible, es el Espíritu Santo.

Esta Trinidad no puede destruir la unidad con que adoramos a un solo Dios. En otras palabras sólo es monoteísta quien adora a la Santísima Trinidad, porque la Unidad de Dios es inseparable de la Trinidad de Personas.

Es falso, pues, decir que los musulmanes son monoteístas. No lo son porque no adoran al único Dios verdadero que es Trino. Ellos son monólatras, o sea, adoran un solo ídolo supremo.

Dígase lo mismo de los judíos, cuando rechazaron la revelación de la Santísima Trinidad. Ellos también dejaron la adoración del verdadero Dios Trino, aunque no lo supiesen, para inclinarse ante un ser inexistente, un ídolo por lo tanto.

Sólo hay, pues, una religión monoteísta: es la Católica, que adora a la Santísima Trinidad.


 Revista Roma Nº 93

Legitimidade Católica Olvidada: o Culto a São Pedro de Arbués, Mártir


São Pedro de Arbués
Mártir vitimado pelos que odiavam a Inquisição

Inquisidor, defensor da fé no reino de Aragão, foi morto a mando de judeus pretensamente convertidos ao cristianismo, quando rezava na catedral de Saragoça

Plinio Maria Solimeo

 
Martírio de São Pedro de Arbués

A maior glória da Espanha era sua catolicidade destemida, ufana, realista. O espírito racionalista do século XIX detestava particularmente esse admirável espírito espanhol. Daí organizar uma campanha de difamação contra esse país e contra suas mais legítimas instituições, cobrindo-os com uma legenda negra, que nosso tempo herdou sem espírito de crítica. O objeto de maior difamação dessa “legenda” foi o Santo Tribunal da Inquisição contra a Perfídia dos Hereges.

É bem verdade que historiadores conscienciosos têm recentemente mostrado a parcialidade e exagero dos críticos desse Santo Tribunal, sobretudo as cifras exageradas que apresentam. Um historiador, insuspeito por ser protestante, afirma que “um auto-de-fé não se passava nem a queimar nem a pôr à morte [suas vítimas], mas em parte a pronunciar a quitação das pessoas falsamente acusadas, em parte a reconciliar com a Igreja os arrependidos. E houve muitos autos-de-fé nos quais não se viu queimar senão o círio que os penitentes tinham na mão, em sinal de sua fé”.(1) “O mesmo Llorente, o historiador que, sob pretexto de falar sobre a Inquisição, a desfigurou com tanta obstinação, cita para o ano de 1486 quatro autos-de-fé em Toledo, onde não havia menos que um total de três mil, trezentos e cinqüenta culpados punidos. Sobre esse número, quantos foram postos à morte? Nenhum! Llorente o reconhece. As punições consistiam geralmente em uma penitência, uma recitação de salmos”.(2)

O Santo Ofício tinha por lema Misericórdia e Justiça, desconhecido então pelos tribunais civis do tempo.

A Santa Inquisição, para os males da Espanha

Após a reunificação da Espanha sob seus cetros, os Reis Católicos, Isabel e Fernando, tiveram que enfrentar dois perigos: os mouriscos, que conspiravam procurando recuperar sua antiga supremacia; e os judeus conversos, ou cristãos novos, que muitas vezes, aparentando verdadeira conversão, procuravam, através da riqueza e do poder político cada vez mais em suas mãos, também a supremacia, com perigo para a verdadeira fé.

“O que fazer em tal conflito religioso, com tais inimigos domésticos?” –– indaga o renomado escritor espanhol Menéndez y Pelayo. E responde: “O instinto da própria conservação se sobrepôs a tudo; e, para salvar a qualquer preço a unidade religiosa e social, para dissipar aquela dolorosa incerteza em que não se podia distinguir o fiel do infiel, nem ao traidor do amigo, surgiu em todos os espíritos o pensamento da Inquisição”. Sobre seu resultado, afirma: “Nunca se escreveu mais nem melhor na Espanha que nesses dois séculos de ouro da Inquisição. No século XVI, inquisitorial por excelência, a Espanha dominou a Europa, ainda mais pelo pensamento que pela ação, e não houve ciência nem disciplina em que não se marcasse a sua garra”.(3) E o historiador Pe. Mariana acrescenta: “Nenhum tribunal há em todo o mundo para maior espanto dos maus, nem de maior proveito para toda a Cristandade. É um remédio dado pelo Céu, que sem dúvida não bastaria prudência humana para preveni-lo”.(4)

O antigo confessor da rainha Isabel na infância, o frade dominicano Tomás de Torquemada, conhecido por sua virtude e saber, foi designado como Inquisidor Geral e encarregado de levar avante a antiga instituição. Escolheu para auxiliá-lo como Primeiro Inquisidor o cônego do capítulo da Sé de Saragoça, Pedro de Arbués, conjuntamente com Frei Gastar Inglário, dominicano.

“Mastrepila” — o santo Mestre de Epila

Pedro de Arbués era oriundo de nobilíssima família, nascido em Epila, no reino de Aragão, no ano de 1441. Tinha cinco irmãs, quatro das quais se casaram com os mais ilustres gentis-homens de Aragão.

Depois de terminar seus estudos em Huesca, foi para a então famosa universidade de Bolonha, uma das mais brilhantes na época. “Companheiro amável, coração generoso e caritativo, talento humilde quanto esplêndido, centrava sobre si a admiração de seus mestres e o aplauso de seus condiscípulos, diante dos quais passava como o melhor representante do mundo estudantil”.(5) Com o grau de doutor, voltou então para a pátria.

Sendo seu talento e virtude logo reconhecidos, foi eleito membro do capítulo da Sé de Saragoça, como cônego regular, seguindo a regra de Santo Agostinho.

Não é de admirar que ele fosse escolhido para o difícil cargo de Primeiro Inquisidor, pois por seu caráter firme, douto e austero, já se havia tornado conhecido na cidade, onde o povo começara a chamá-lo de “el santo Maestro de Epila”, ou simplesmente “Mastrepila”. Esse instinto salutar do povo não deixava de ser atraído pela sua virtude. Diz um seu antigo biógrafo que ele, desde sua infância, havia dourado o ferro do pecado original com o ouro celeste das virtudes.(6)

Pedro de Arbués entregou-se por inteiro à sua nova função: “Ardente em procurar conversões, ele não era menos prudente em aceitar senão as sinceras e provadas, tanto para evitar a profanação dos sacramentos quanto para diminuir o perigo de defecções que expusessem em seguida o culpado a todo o rigor da lei. [...] Era encontrado por toda parte onde se achasse uma alma tocada pela graça de Deus, por toda parte onde um coração vacilante e de perseverança duvidosa lhe era apontado: na cabana do pobre e no balcão do rico, na cabeceira dos doentes, nas prisões onde estavam encerrados os relapsos e apóstatas, e até ao pé dos cadafalsos onde alguns iam expiar tristemente sua inconstância”.(7)

Entretanto, o novo tribunal encontrou oposição entre os aragoneses, que queriam preservar vários privilégios regionais. Uma revolta, fomentada e alimentada por muitos conversos judeus, foi num crescendo.

Mas a atitude franca e destemida do novo Inquisidor enfrentou toda oposição, pela palavra e sobretudo pelo exemplo. Sendo cônego, baniu de sua casa todo luxo, e entregava-se a severas privações. Mostrava-se um pai para os pobres e procurava toda ocasião para exercer as obras de misericórdia, tanto espirituais quanto temporais. Ele foi mesmo dotado do dom de profecia, tendo predito a queda de Granada quando parecia temerário fazê-lo.

Matar um inquisidor, para não surgir outros

No ano de 1484, tendo falecido o outro inquisidor, Frei Inglário, e não tendo ainda sido substituído, todo o ônus do ofício caiu sobre o Cônego Pedro de Arbués.

Muitos dos judeus pseudo-convertidos, temendo que o Tribunal da Inquisição pesquisasse suas duvidosas vidas de piedade e sua sinceridade na prática da religião, se reuniram contra aquele que era seu inimigo comum. O que fazer contra ele? O veredicto foi dado por Garcia de Moros: “Matemos um inquisidor, e com o medo não virão outros”. A sorte de Pedro de Arbués estava selada.

Vários atentados foram praticados contra ele, sendo que uma vez mal se livrou do punhal assassino, e outra teve as grades da habitação limadas, o que foi descoberto a tempo. Alertaram-no para que andasse protegido. Ele resolveu confiar só em Deus, dizendo que, de mau padre que era, queria fazer um bom mártir.

“Morro por Jesus Cristo. Louvado seja seu Nome”
Na madrugada de 14 para 15 de setembro, o Cônego Arbués dirigiu-se para a catedral, como fazia diariamente, para rezar com os cônegos o Ofício Divino. Chegando próximo ao altar, ajoelhou-se para rezar as orações preparatórias. Saindo os sicários dos judeus das trevas onde se tinham escondido, um deles deu-lhe uma punhalada na garganta. O mártir tentou ainda escapar indo para o coro, onde estavam os outros religiosos. Mas um segundo assassino o varou com sua espada. Caindo ao solo, Pedro de Arbués exclamou: “Morro por Jesus Cristo. Louvado seja seu Nome”. Levado para casa, aí morreu dois dias depois, tendo perdoado seus assassinos que, encontrados depois, foram decapitados.

A consternação e a revolta popular pelo sacrílego atentado atingiu o auge. O povo saiu pelas ruas, clamando por punição para os conversos e pedindo a expulsão de todos os judeus da Espanha. Para evitar um massacre dos judeus, foi preciso que o vice-rei Fernando de Aragão, meio-irmão do rei, saísse às ruas prometendo severo castigo do crime.

O mártir Pedro de Arbués teve um apoteótico enterro. Quando seu corpo chegou à catedral onde seria sepultado, e foi depositado no solo, viu-se um milagre: seu sangue, que por respeito não haviam limpado do piso, e que se encontrava seco e escuro, readquiriu vida ao contato com o caixão, tomou brilhante cor e aumentou em tal abundância, que a multidão pôde molhar nele lenços e outros objetos, que guardaram como relíquias. O prodígio se repetiu 15 dias depois, como é relatado na Acta Sanctorum.

“Santo Mastrepila, ressuscita meu filho”
Entre os milagres aprovados para a beatificação do mártir, estão as ressurreições de dois meninos, um dos quais era dos arredores de Saragoça. Quando o corpo ia descer ao túmulo, a mãe, tomada por súbita inspiração, pegou-o nos braços, clamando em altas vozes: “Santo Mastrepila, eu te ofereço este fruto de minhas entranhas. Ele é teu. Ressuscita-o, por favor, meu Santo”. No mesmo instante as cores voltaram ao menino, que se levantou. A mãe levou como ex-voto ao túmulo de São Pedro de Arbués o sudário em que o menino estava sendo sepultado.

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Notas:

1. Héfélé, Ximenes, p. 322, apud Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Paris, 1882, t. XI, p. 190, nota.

2. Les Petits Bollandistes, id., ib.

3. In Edelvives, El Santo de Cada Dia, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1955, tomo V, p. 172.

4. In Fr. Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo III, p. 619.

5. Edelvives, op. cit., p. 173.

6. In Frei Perez de Urbel, op. cit., p. 619.

7. Les Petits Bollandistes, op. cit., p. 190.

O Princípio da Subsidiariedade segundo Galvão de Sousa



Círculos concêntricos de entes autônomos e interdependentes

(De Voto Católico)

Consiste em as sociedades maiores, especialmente o Estado, ajudarem e complementarem as atividades dos indivíduos e dos grupos sociais tanto no campo econômico quanto nos demais setores da vida humana.

A sociabilidade humana é um fato: os homens vivem agrupados. Os grupos sociais, livremente formados, dão origem a uma estrutura natural da sociedade maior que, na realidade, não é senão uma sociedade de sociedades: famílias, entidades profissionais, culturais, assistenciais, artísticas. O inter-relacionamento das sociedades menores e o destas com a sociedade política fazem desenvolver-se uma dinâmica funcional que implica definir-lhes devidamente os poderes e competências. Para se chegar a essa definição há que adotar um critério.


Em pé, José Pedro Galvão de Souza

Como é inerente ao homem o direito natural de se associar, daí decorre também um direito próprio dos grupos sociais de se autorregulamentarem, autorregerem, autoadministrarem para a realização dos seus fins. Desta forma, a sociedade política, ao se organizar, não só não pode ignorar como deve respeitar essas autonomias sociais, quando vem a estabelecer normas e mecanismos adequados a conferir uma unidade de ordem à multivariedade dos agrupamentos. Ademais, a anterioridade da sociedade em relação ao Estado também autoriza afirmar a plena autonomia dos poderes sociais. Na verdade, a sociedade antecede o Estado na ordem histórica e, além disso, deve ser considerada não como entidade uniforme e indiferenciada, mas como realmente é, ou seja, uma complexa contextura multigrupal. Quando o Estado surge, precisa levar em conta essa realidade e organizar-se enquanto entidade modal, ou seja, um modo de ser da sociedade, com uma estrutura jurídico-político-administrativa cuja atuação se fará em esfera de competência específica, limitada pelas competências dos grupos sociais. Configura-se, assim, um princípio de filosofia social e política que deita raízes na natureza humana (o homem, além de racional e livre, é um ser social) e na natureza da sociedade (a sociedade é construída de sociedades): o que os indivíduos podem fazer por iniciativa e capacidade próprias compete a eles fazer; o que as sociedades menores podem fazer com meios próprios deve ser feito por elas, sem interferência ou absorção por parte das sociedades maiores; tanto as sociedades menores, em relação aos indivíduos, como as sociedades maiores, em relação às sociedades menores, devem cumprir essa tarefa de ajuda sempre que necessário. Assim é, por força do princípio de subsidiariedade que deve presidir as ações e interações tanto dos indivíduos e dos grupos sociais, quanto do Estado em relação a uns e outros.

A importância desse princípio ganha especial relevo quando aplicado ao exercício da atividade do Estado no tocante a setores em que a primazia cabe a particulares: o setor econômico, o cultural, o assistencial. De regra, não incumbe aos poderes públicos atuar diretamente nesses campos, por escaparem a seus fins específicos. É sua obrigação criar condições para que essas atividades se desenvolvam da melhor maneira possível. Por isso que o Estado não deve fazer, embora, às vezes, e em caráter excepcional, também deva fazer. Por princípio, no entanto, deve tão-só ajudar a fazer. Trata-se de ajuda (subsidium), em sentido amplo, pois numa reta ordenação de suas atividades o Estado fovet, excitat, ordinat, supplet atque complet, fomenta, estimula, coordena, supre e completa ou integra. Posto numa ordem hierárquica superior, o Estado — sociedade maior por excelência — exerce uma função subsidiária com vistas a promover o bem geral mediante providências diversas: dirigir, vigiar, urgir , corrigir, reprimir.  A aplicação do princípio de subsidiariedade traz consequências importantes. Uma delas é tornar real a limitação do poder do Estado. Isto não significa que o Estado deva ser reduzido à inação, ou deva agira somente para suprir deficiências. Ao se lhe tirarem as possibilidades de incorrer em intervencionismo ou dirigismo, garante-se a autodeterminação dos indivíduos e dos grupo sociais, valorizando-se efetiva e concretamente as liberdades. Impede-se, assim, que um processo totalitário se instale nas estruturas de poder. Este não deixará de atuar, mas ficará adstrito à própria área de atribuições, por força de uma organização do Estado dimensionada segundo uma concepção do homem e da sociedade, fundada na ordem natural das coisas. A atividade subsidiária permitirá ao Estado exercitar uma função vitalizadora do organismo social, mediante a adoção de medidas apropriadas: fomento de iniciativas, incentivo de atividades, implementação de condições, suprimento de carências, correção de deficiências, integração de forças sociais. Elide-se, desta maneira, o risco de gigantismo, típico do Estado moderno, cuja faina concentracionária se opera, quer pelas vias democráticas, quer pelas vias totalitárias.
                                          


Também não se perca de vista que se está em face de um princípio de divisão de competências, pois se trata de um "princípio de ordem" que discrimina, com fundamento na natureza das coisas, as esferas de poder das sociedades menores e do Estado, permitindo identificar o âmbito de ação de cada qual e definir suas relações recíprocas. Deste modo, não só o Estado tem seus limites de atuação naturalmente assinalados como também os grupos sociais encontram a delimitação de seu campo de ação ante o elenco das competências genuínas do Estado, exercidas em área exclusiva. Ter competência própria para agira — ou seja, realizar os próprios fins com seus próprios meios — significa garantir a própria autonomia, sem que isto implique os grupos sociais e o Estado se ignorarem ou se hostilizarem. Mesmo porque os bens comuns parciais visados pelos grupos sociais não podem prescindir do bem comum global objetivado pelo Estado a fim de ser alcançado um desenvolvimento satisfatório e harmônico.

Pelo fato de deter o poder soberano, cuja força e amplitude são evidentes, o Estado carrega um potencial de expansibilidade que tende a irromper em setores onde lhe é vedado atuar ordinariamente. Quando essa expansão decorre de uma filosofia totalizante ou totalitária do poder, só será corrigível mediante uma reestruturação integral do Estado. No entanto, se se tratar de desvios programáticos, também eles perigosos, será necessário recolocar a atividade estatal no seu devido lugar,, vale dizer, o lugar próprio de um poder soberano. É certo que, situado superiormente, no quadro da sociedade global, o Estado poderá vir a atuar não apenas no sentido de ajudar no desenvolvimento das atividades dos indivíduos e dos grupos sociais, mas, inclusive, mediante ação direta, chegando até mesmo a substituir certa atividade privada, se isto for absolutamente necessário, devendo, porém, retrair-se assim que, na área visada, os particulares estiverem habilitados a agir a contento e sem prejuízo para o bem comum. Não se exclui, pois, a intervenção, que, todavia, só é admitida excepcionalmente e na justa medida. Para encontrar essa justa medida, todo um critério prudencial deverá premunir a decisão e a ação. Diz, a propósito, Marcel de la Bigne de Villeneuce (1899-1958):

"Os negócios da pessoa devem pertencer à pessoa; os negócios da família, à família; os negócios da profissão, à profissão; os negócios da comuna, à comuna; os negócios da região, à região; os negócios da Nação, ao Estado."
Essa linha de procedimento, ao definir e escalonar as competências, constitui um critério prévio do qual importa partir, a fim de pôr cobro a expedientes intervencionistas. Nesse sentido, é preciso considerar que, especialmente quando a função subsidiária deve ser exercitada com caráter supletivo, pode emergir grave risco de intervencionismo, ainda que disfarçado em mera ajuda. Não obstante isso, devem-se considerar situações e,m que a pessoa não tenha condições de atuar, cabendo a ação a um grupo social. Também, eventualmente, ocorrerão situações em que a família se veja impossibilitada de agir, devendo, então, a ação ficar a cargo de um grupo social maior. Essa mesma ordem de raciocínio se aplica ao município em relação à província, assim como se aplica à província em relação ao Estado. No tocante ao Estado — consideradas as três esferas da administração pública — a ação supletiva se exercerá desde que se verifique, objetivamente, a impossibilidade de atuação dos particulares por insuficiência, deficiência ou inconveniência, em face dos ditames do bem comum.

Três hipóteses podem ser destacadas no tocante à ação supletiva: 1) Sempre que a natureza do empreendimento tiver um caráter público diretamente dependente da iniciativa do Estado, em razão de sua especificidade, ou porque o vulto dos recursos exigidos ultrapasse a capacidade econômico-financeira dos particulares. É o caso das obras de saneamento básico, da construção de usinas hidrelétricas ou nucleares, etc. 2) Sempre que se verificarem crises sociais pertinazes, de debelação difícil senão impossível pelos meios normais, mediante a ação dos grupos sociais autônomos. Por exemplo: a criação de frentes de trabalho para desempregados, em razão de persistente período de seca, ou a execução de programa de desfavelamento em que a ajuda se faça estimulando a iniciativa do favelado, a cooperação dos grupos sociais e a ajuda dos poderes públicos. 3) Sempre que estiverem em causa os altos interesses nacionais, em que é obrigatória a ação exclusiva do Estado, a fim de prevenir lesão irreparável ao bem geral. É o que ocorre com a exploração de certa categoria de bens, aí interferindo decisivamente questões atinentes à segurança nacional (como é o caso dos minérios atômicos) ou à independência econômica (como pode ser o caso do petróleo).

Tudo isso demonstra que o princípio de subsidiariedade não se situa em plano abstrato. Até pelo contrário, está estreitamente vinculado à realidade das coisas e às contingências da vida social. Mantém-se íntegro mesmo quando a intervenção segmentar vem a ocorrer com caráter direto e exclusivo. Ainda aqui, no entanto, verifica-se ser exigência do bem comum que a iniciativa não fique com os particulares.


E disso acabarão por se beneficiar os próprios particulares pelo fato de se impedir que uma parcela deles venha a reunir em suas mãos tal soma de poderio econômico e, quiçá, também político, suscetível de comprometer a paz social. Não fosse esta a razão final da intervenção — e apenas nesses moldes — e não haveria como justificá-la.

Cabe observar ainda que o princípio de subsidiariedade tem aplicação também no plano internacional, como ocorre no concernente às organizações regionais de povos e da comunidade das nações. Tipifica-se igualmente nas alianças militares de defesa, tendo em vista a segurança coletiva de determinadas zonas do globo, quando os povos não podem defender-se apenas com os próprios recursos.

O princípio de subsidiariedade, implícito nas ideias de muitos autores, desde Aristóteles (384-322 a.C.), encontra-se formulado com bastante clareza na Doutrina Social da Igreja, especialmente na Encíclica Quadragesimo anno (15 de maio de 1931), de Pio XI (Papa, de 1922 a 1939):

“Verdade é, e a história o demonstra abundantemente, que, devido à mudança de condições, só as grandes sociedades podem hoje empreender certas tarefas que antes eram feitas pelas pequenas. Permanece, contudo, firme e constante na filosofia social aquele importantíssimo princípio inamovível e imutável: assim como é lícito subtrair aos indivíduos o que eles podem realizar com as próprias forças e indústria, é também uma injustiça, com grave dano e perturbação da reta ordem social, passar para uma sociedade maior e mais elevada o que sociedades menores e subalternas podem conseguir. Toda ação da sociedade, por sua própria natureza, deve prestar ajuda (subsidium) aos seus membros, e nunca destruí-los nem absorvê-los. Deixe, pois, a autoridade pública suprema que as sociedades menores cuidem de seus objetivos próprios, entregando-se ela a desempenhar mais livre, enérgica e eficazmente o que só a ela compete porque só ela o pode fazer: dirigir, vigiar, urgir e reprimir, conforme os casos e a necessidade o requeiram. Persuadam-se todos os que governam que quanto mais perfeita ordem hierárquica reinar entre as várias agremiações, uma vez observado esse princípio da função ‘subsidiária’, tanto mais firme será a autoridade e maior a eficiência social, e tanto mais próspero e feliz o estado da coisa pública.”

O princípio de subsidiariedade, por decorrer da natureza das coisas, é imutável e universal: vale para todos os tempos e todos os lugares. E o Estado — existindo para o homem —, ao se estruturar jurídico-politicamente, sob qualquer regime (à exceção do totalitário, por razões óbvias), deve levar em conta esse princípio, que assegura uma reta ordenação da sociedade, e descarta, consequentemente, tanto o individualismo quanto o coletivismo, com os males que lhes são inerentes.

Dicionário de Política, José Pedro Galvão de Sousa, Clovis Lema Garcia e José Fraga Teixeira de Carvalho; T. A. Queiroz editor, São Paulo, 1998. 

Portugal e Espanha





(Do blog Reconquista)

"Se a civilização é essencialmente o Cristianismo, ninguém a dilatou e serviu como os povos naturais da antiga Hispânia. É o traço dominante da sua alma, - o selo que lhes imprime grandeza e individualidade Por esse prisma o gênio peninsular é universal como nenhum outro. A vocação apostólica constitui a sua determinante mais poderosa. E, pelo nosso amor ao Absoluto, é fácil de se abranger a razão por que o Cristianismo na Península se revela e radica, não só como confissão religiosa, mas, sobretudo, como uma íntima e veemente afirmação social. Compreende-se já porque portugueses e castelhanos foram no mundo missionários e descobridores e como apenas eles se glorificam com o raro título de fundadores de nacionalidades! Ninguém ignora a lenda-negra que infama a Península como inútil para as conquistas superiores da humanidade. É uma calúnia do século XVIII, principalmente, - da estreita e sectária mentalidade dos Enciclopedistas, que não podendo separar o Catolicismo da vida da Península, a denegriram por sistema, cobrindo-a de diatribes e de aleives sem conto. No entanto, metade do mundo devia às Espanhas a sua entrada na civilização, - e a paz da Europa, perturbada, dum lado, pela ameaça crescente do Turco e, pelo outro, pelo alastramento da heresia protestante, salvou-se duma catástrofe mortal, por virtude ainda do esforço heróico dos reis e soldados peninsulares".

Antonio Sardinha (O Gênio Peninsular, 1920)