terça-feira, 30 de abril de 2013

Cultura, alta cultura, literatura: um Brasil sem referências



(Do blog do Instituto de Filosofia e Educação Clássica Ser Fundamentos)




Ao longo de sua história, a humanidade sempre encontrou motivos para caracterizar cada época de seu desenvolvimento como “essencialmente diferente das demais” – pois o mais provável é que assim o fosse.



Cada sociedade – modernamente digamos: cada país – tem uma face peculiar num dado momento do tempo. Isto é a base da refutação daquela crítica segundo a qual “desde sempre o homem lamenta sua condição no mundo; não há nada de novo em se apontar problemas no que quer que seja”. Ora, de fato, a crítica dos arredores é natural à condição do homem de ser racional e desde os primórdios de suas atividades intelectuais os homens se debruçam sobre o problema dos males no mundo. Mas é preciso assinalar este outro fato: cada momento na história – bem como cada geração em cada particular localidade – apresenta problemas que não se confundem com aqueles gerais da época ou com os que vieram antes, embora necessariamente relacionem-se a estes. Por isso não há nada mais legítimo do que os representantes de cada geração, em cada sociedade ou país, dedicarem-se à crítica de seus arredores mais imediatos, pois certamente encontrarão aí algo de novo a que as críticas anteriores não se podiam reportar.

Este texto tem duas premissas: 1) pensar o Brasil de hoje consiste em identificar os particularíssimos problemas que caracterizam nossa presente sociedade e a localizam dentro do momento histórico global; 2) pensar qualquer sociedade consiste enormemente na análise de seus fatos culturais: antes das instituições políticas e das leis, e seguindo o curso do comportamento típico da sociedade – valores, crenças, opiniões – num dado momento do tempo, tem-se, como um espelho deste, a cultura.

Qual o estado da cultura brasileira atual? O que salta aos olhos quando nos fazemos essa pergunta é um fato impressionante: a ausência cabal, no Brasil de hoje, daquilo que se chama alta cultura. Perceba o leitor que a importância dessa constatação reside em que nela se condensa aquilo que seria o nosso “particularíssimo problema”. Poderíamos igualmente destacar entre nossos males a desonestidade de nossa classe política ou a imoralidade que se vem tentando oficializar legalmente, na esteira de vir ganhando cada vez maior circulação entre o povo. No entanto, esses são problemas que se inserem numa grade de tendências mais ou menos globais. Num país como os Estados Unidos, apesar de o governo estar refém de um programa partidário tão pernicioso quanto o brasileiro, ainda há a dita alta cultura. Mas entre nós… O que se passa?

Entenda-se por alta cultura todas aquelas obras da criatividade humana em que o momento histórico no qual se inserem, bem como os legados da humanidade como um todo, são traduzidos simbolicamente, atendendo a critérios estéticos elaborados pela tradição dos gêneros artísticos; uma obra de arte digna de nota deve remeter-se à tradição que a precede (sejam romances, quadros, peças musicais), não necessariamente filiando-se a ela, mas de algum modo respondendo a ela, ainda que para negá-la. Ora, a principal característica da cultura brasileira atual é um profundo desconhecimento das tradições artísticas, não digo nem do Ocidente, mas mesmo do próprio Brasil, variando da ignorância total ao domínio capenga daqueles critérios estéticos necessários à composição de qualquer obra que almeje um diálogo ativo com os cânones.

Em verdade, associada à parca educação da classe incumbida de produzir nossa alta cultura (a relação de distância quanto às tradições artísticas redunda em falta de educação), verifica-se uma acachapante falta de ambição da parte do artista brasileiro contemporâneo. Isto pode soar contraditório, quando o que mais vemos por aí são homens e mulheres alardeando seus talentos artísticos, seja em revistas culturais (que não são poucas entre nós), em blogs, na televisão ou mesmo pelas ruas.

De fato, a julgar pelas aparências, um marciano que ainda não dominasse em profundidade o conceito de alta cultura acreditaria ter no Brasil um verdadeiro caldeirão cultural, páreo para uma Inglaterra renascentista ou uma Rússia do século XIX. Mas a verdade é que por trás de tanto barulho pouco de efetivamente relevante se salva. E, se assim o é, isto se pode creditar em grande medida à falta de ambição do artista brasileiro: o que em princípio é mera ignorância da tradição torna-se logo em programa de trabalho, e imediatamente se têm manifestos exaltando a espontaneidade, a instantaneidade e a falta de seriedade do que deviam ser obras de arte. Ou seja, o artista brasileiro contemporâneo não almeja um diálogo com os cânones, ao menos não enquanto continuador consciente deles, enquanto autor do que a contemporaneidade legará de canônico ao futuro. Se se disser a um jovem poeta brasileiro que ele escreve pior do que Camões, ele fará uma cara de espanto e dirá “Mas é claro! É Camões!”, ou talvez nem se precise ir tão longe: peça-se ao jovem poeta para competir com um Manuel Bandeira, com um Carlos Drummond, e ele retribuirá com um olhar quase ofendido – ofendido em nome de seus intocáveis predecessores, sobre os quais é sacrílego supor que possam ter nos dias de hoje quem os desafie. E, no entanto, há outro modo de se produzir alta cultura?

Façamos, em tempo, a distinção fundamental entre cultura e alta cultura. Evidentemente, esta está contida naquela. Venho tratando por alta cultura tudo aquilo que, dentro do bojo comum das manifestações da personalidade de um povo – a cultura –, destaca-se pelo refinamento de sua composição e por não ser apenas reflexo do momento cultural, mas que traga em sua estrutura algo de autoconsciência e autocrítica. É essa característica autoconsciente que permite a alguns artistas transcenderem seu momento sociocultural, sendo capazes, entre outras coisas, de parodiá-lo, mesmo estando inseridos nele. Tal capacidade de distanciamento só é possível quando já se empreendeu um verdadeiro estudo do objeto o qual se deseja retratar; do contrário, no caso desse objeto corresponder à realidade circundante, o máximo que se consegue é determinar-se por ele. 
O que ocorre no Brasil de nossos dias é justamente a redução da arte ao 
espontâneo impensado, ou, em outras palavras: há uma contaminação da alta cultura pela cultura, não sendo demasiado identificar mesmo uma total substituição daquela por esta. Um exemplo notório disso é serem tomadas por poesia as letras de canções populares que, como insistia fervorosamente Bruno Tolentino, podem ter muito de poético, mas estão um tanto aquém do poema propriamente dito.  Acontece que a poesia hoje foi reduzida ao status de texto de teor confessional, onde se dá arbitrariamente uma disposição vertical a linhas de prosa quebradas, texto esse que, musicado ou não, não apresenta qualquer particularidade em relação à letra de música. Já a musicalidade própria da poesia, obtida nos metros ritmados e de jogos de rima, é considerada um belo arcaísmo, coisa difícil demais de se fazer, pois demanda estudo, treino e, evidentemente, tempo – o que vai contra as regras da espontaneidade desleixada do poeta contemporâneo.

A literatura é, por excelência, o veículo onde se cristalizam as características de uma sociedade num dado momento. Em seus melhores exemplares, ela não é um mero espelho, mas, como dito anteriormente, apresenta uma visão crítica da realidade que nela se reproduz, o que implica dizer que a boa literatura ajuda a compor a realidade, modificando-a. Daí seu papel crucial para o desenvolvimento das sociedades, pois sintetiza e avalia seus valores e dá ao povo um auto-retrato que nunca deixa de influenciar a psique coletiva.
Cabe-nos então olhar para a arte brasileira contemporânea, dando especial atenção à literatura e perguntando a partir dela: quem somos nós? Porém, eis o dilema: no Brasil deste início de século XXI não há uma literatura que nos represente, que dê conta de nos mostrar enquanto totalidade de um povo, expondo nossas contradições e assinalando nossos pontos fortes, de modo que nela o brasileiro tenha a condensação de sua essência.
Nossa prosa recente, que sai dos blogs para os livros impressos sem perdas ou ganhos, é presa de um subjetivismo inócuo, focalizando protagonistas sem raízes, de todo indiferentes ao fato de pertencerem a circunstâncias maiores que seus umbigos. Quando olhamos para a grande literatura universal – digamos, os gênios russos do século XIX –, vemos, pelo contrário, um esforço incansável da parte dos autores para situar suas personagens no momento histórico, sem com isso comprometer a análise psicológica e a descrição de ambientes imediatos. Mas o jovem ficcionista brasileiro parece recusar-se a tal esforço intelectual e imaginativo; prefere seguir o jorro de uma escrita automática, disfarçada de pós-modernismo combativo, sendo que, até este momento, tudo que tem logrado combater é aquela dama agonizante chamada Literatura Brasileira, que há pelo menos duas gerações não dá o ar da graça pelas bandas daqui.[1]

E, no entanto, raras vezes se viu ausência tão eloquente, capaz, ironicamente, de dizer mais sobre o que somos hoje do que a ficção que tantos escrevem sem obter resultados. Somos, pois, isso: uma sociedade sem autoconsciência, sem superego e totalmente entregue à preguiça dos automatismos do momento.

Nota:

[1] Não há quaisquer exceções? Há, sim; pouquíssimas e notadamente frutos de esforços isolados, que conseguem despontar à revelia do meio cultural geral. Mas, para os fins deste texto, é melhor não alentar o leitor com as exceções: ganhamos mais mantendo o cenho fechado e as esperanças em suspenso, pois em estado de alerta trabalha-se mais e melhor.

Lorena Miranda, graduada em Letras, é mestranda do Departamento de Literatura e Cultura Russa da USP.

Publicado no site da revista Vila Nova.

A estiagem em curso no Nordeste brasileiro: Notas




A região Nordeste do Brasil se vê às voltas com o problema das secas novamente. Todos os esforços prometidos pelos poderes públicos para minorar as repercussões negativas do fenômeno natural, quando não contraproducentes ou inexequíveis, não passam de tardios paliativos para os desdobramentos mais críticos da seca: promessas de indenização pelas perdas, caminhões-pipa aqui e acolá para dessedentar os sertanejos e seus esquálidos rebanhos e coisas do tipo. Medidas contracíclicas para prevenir os males decorrentes da seca? Nada. Afinal de contas, manter os sertanejos reféns da insegurança econômica conseqüente às agruras da seca garante a longevidade da Síndrome de Estocolmo eleitoral movida a assistencialismo que possivelmente reconduzirá Dilma Rousseff ao Palácio do Planalto no ano que vem.


* * *



Nem todos se deixam iludir pelo jogo que os poderes públicos fazem com as mazelas da seca para perpetuação no poder das oligarquias de sempre: na cidade de Campina Grande, um criador de rebanhos protestou despejando as carcaças dos seus animais abatidos pelos rigores da seca diante do Banco do Nordeste.


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Ainda no que toca a Campina Grande, a cidade é notória no Brasil pela sua saudável rebeldia ante os desmandos dos poderes centrais. Em meio ao Nordeste subjugado pela dialética suborno/chantagem do assistencialismo do Partido dos Trabalhadores (PT), Campina Grande destaca-se pela altivez com que manifesta sua resistência ao projeto político dos petistas nas eleições presidenciais. No entanto, não é de agora que o município paraibano expressa sua tenacidade ante os desmandos governamentais. Ao leitor, sugere-se tomar ciência da Revolta do Quebra-Quilos.

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Ao contrário do que muitos pensam, clima semiárido não precisa ser sinônimo de miséria generalizada. No mundo inteiro há cidades prósperas erguidas em meio a climas secos, caso da virtual totalidade do território do Estado de Israel; de Salt Lake City, nos Estados Unidos; e das cidades brasileiras de Petrolina e Juazeiro, pólos de fruticultura exportadora. Desde que atentando zelosamente para os limites estipulados pela Sã Doutrina católica, a exploração econômica das zonas tórridas do Nordeste deve levar em conta as enormes potencialidades e os singulares desafios da natureza local, e não transplantar acriticamente o modelo de dinâmica econômica das regiões de clima ameno para o sertão. Uma boa maneira de se fazer isso passa certamente pela releitura (sob o prisma da Santa Fé) dos pretéritos casos de empreendedorismo local bem sucedido, como o de Delmiro Gouveia.

* * *

A peleja do nordestino com a seca rendeu às artes brasileiras um amplo e vistoso patrimônio literário, musical e pictórico. Dentre todos os artistas que colheram inspirações nos dramas existenciais impostos ao sertanejo pelas severas inclemências das estiagens, Mundividência destaca Elomar Figueira Mello e Xangai.

Elomar Figueira Mello

Elomar, a quem Vinícius de Moraes chamou de Príncipe da Caatinga, é um inusitado compositor cujas criações mesclam o linguajar do homem simples e rústico do sertão com versos alexandrinos, adornando-os com arranjos melódicos que combinam a música popular tradicional do Nordeste, a música medieval ibérica, e a música renascentista. Xangai é o soul mate elomariano por excelência: seu timbre peculiar parece ter sido feito sob medida para interpretar o cancioneiro do trovador-repentista.

Feitas essas observações introdutórias, Mundividência compartilha três composições de Elomar que expressam o desalento do sertanejo com a seca, e também a relação deste com as aguardadas chuvas:

                                                                        CAMPO BRANCO



                                                    CURVAS DO RIO








Ao Braço do Mesmo Menino Jesus Quando Appareceo


Ao Braço do Mesmo Menino Jesus Quando Appareceo

(Gregório de Mattos Guerra)



                                               O todo sem a parte não é todo,

                                               A parte sem o todo não é parte,

                                               Mas se a parte o faz todo, sendo parte,

                                               Não se diga, que é parte, sendo todo.


                                               Em todo o Sacramento está Deus todo,

                                               E todo assiste inteiro em qualquer parte,

                                               E feito em partes todo em toda a parte,

                                               Em qualquer parte sempre fica o todo.


                                               O braço de Jesus não seja parte,

                                               Pois que feito Jesus em partes todo,

                                               Assiste cada parte em sua parte.


                                               Não se sabendo parte deste todo,

                                               Um braço, que lhe acharam, sendo parte,

                                               Nos disse as partes todas deste todo.

COMUNGO A HÓSTIA BRANCA QUE IRRADIAS


COMUNGO A HÓSTIA BRANCA QUE IRRADIAS



(Ângelo Monteiro)


Comungo a hóstia branca que irradias
Como se em mim ó vida fosses maio
E os sinos em seu último desmaio
Ainda repicassem sobre os dias.

Por isso em tuas chamas me contraio,
E em tua forma circular que hostias
Em minha boca, abrindo novas vias,
Eu busco o amor como quem busca o raio.

Elevo sempre as torres derribadas
Para erguer-me de novo às cumeadas
Onde o vôo mais alto amor coroa.

Como se herdando a fluidez dos ares
A esperança acendesse os seus altares
Na comunhão com tudo que se escoa.


JHS



JHS




(Durval de Moraes)

Cruz de carne a sangrar sobre o Calvário.
Fim de vida no céu de um fim de dia...
Silêncio, solidão, treva, agonia,
Vindo os olhos fechar ao Solitário!

Hóstia de expiação da grei sombria?!
Oh! Que loucura, Excelso Visionário!
É quanto restará do teu fadário,
Fria carne a morrer na noite fria?

Dá-me que eu beba, Pecador sem crime,
Nas cinco fontes dessas cinco chagas,
O sangue que alimenta e que redime...

E dando leve pela vida escura,
Entre as bênçãos dos homens e entre as pragas,
Tua Cruz, teu Amor, tua Loucura.

O Islã: Notas


Acossada pelos sucessivos e crescentes abusos das minorias islâmicas, a Noruega resolveu dar uma (tardia) resposta ao proselitismo religioso saudita no país nórdico: os súditos da monarquia de Ryad e seus demais correligionários maometanos só poderão seguir com o envio de recursos financeiros para a construção de mesquitas em solo norueguês caso a Arábia Saudita passe a aceitar a construção de templos de outros credos em seu território. Nos termos do indiferentismo religioso liberal ora hegemônico, a resposta norueguesa é sem dúvida coerente, e traz algum alívio mesmo a residual Cristandade ainda remanescente na Noruega.

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No Brasil, o Islã segue com seu avanço lento e contínuo. Em tempos recentes, foi anunciada a construção de uma mesquita na cidade de Porto Alegre, a ser erguida com dinheiro vindo de Abu Dhabi. Nas favelas dos grandes centros urbanos, a penetração da ideologia Black Panther subjacente à contestatária subcultura rapper norte-americana trouxe consigo a opção pela religião islâmica como forma de resistência política a uma alegada opressão da elite branca cristã contra o negro pobre. No semiárido do Nordeste brasileiro, clérigos islâmicos aliciam sertanejos para a causa do Crescente. Há, portanto, perigo no horizonte: ou os católicos já se esqueceram da Revolta dos Malês? Uma reedição dela que congregasse periferias urbanas sublevadas à la PCC e sertanejos em armas à la Canudos seria tremendamente desastrosa.

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A Península Ibérica sucumbiu às invasões muçulmanas em onze anos, e levou sete séculos para livrar-se do jugo islâmico. Tendo isso em mente, o velho ditado de que prevenir é melhor que remediar assume um apelo  nada desprezível. Sobre o domínio mouro sobre os reinos cristãos ibéricos, Mundividência recomenda uma das vídeo-aulas da Montfort a respeito da Reconquista (aqui e aqui).

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Em sua colossal ojeriza à Cristandade, os talmudistas escolheram o lado dos ímpios maometanos nas guerras entre estes e a nobreza católica na Reconquista. Assim sendo, a distância entre o vasto poderio econômico, midiático e cultural de Higienópolis e o potencial demográfico, missiológico e insurrecional do Islã no Brasil pode ser bem menor que se supõe.

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No auge da era ferroviária do Brasil, nos idos do Segundo Império e da República Velha, as companhias inglesas que espalhavam trilhos pelo estado do Paraná tencionavam resolver o problema da escassez de mão-de-obra mediante a importação de maciços contingentes de curdos muçulmanos do Iraque, minoria étnica sempre indócil ao domínio neocolonial britânico. A idéia das oligarquias inglesas era debilitar a resistência curda no Iraque com a rarefação populacional dos redutos daquele povo na Mesopotâmia, com a vantagem adicional do favorecimento aos lucrativos empreendimentos ingleses no Brasil. A manobra só não teve êxito porque precocemente o povo do Paraná teve ciência da pretensão, e a rechaçou com veemência. Graças a isso o interior do Paraná não é um pseudópodo do Califado, apesar dos bolsões maometanos de Foz do Iguaçu.

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O ímpeto cruzado ibérico, além de livrar Portugal e Espanha do domínio muçulmano, impeliu a ilustre nação lusitana nos seus empreendimentos navais, inclusive a descoberta do Brasil.

Os esforços por dar combate ao Islã (em particular na personificação otomana deste), bem como por subtrair-lhe pela evangelização e pelo batismo as almas dos pagãos, levou Portugal a erradicar a presença do Império da Sublime Porta na costa índica da África e nos arquipélagos dos derredores. Um dos personagens mais memoráveis desse processo foi Cristóvão da Gama, homem a quem incumbiu liderar as forças portuguesas que vieram em socorro do imperador cristão da Etiópia naquela guerra contra somalis e otomanos que poderia ter sido a última.

Embora em ridícula minoria, as forças luso-etíopes impuseram fragorosa derrota aos inimigos. A improvável vitória resultou sobretudo da invulgar coragem dos portugueses: o próprio Cristóvão da Gama sacrificou-se ateando fogo num paiol cheio de pólvora para não permitir-se ser preso quando na iminência da inevitável captura, levando consigo muitos soldados otomanos.

Deve-se sobretudo aos hercúleos esforços de Cristóvão da Gama e de seus comandados o fato de a Etiópia não ter capitulado diante do Islã e seguir sendo até hoje um oásis cristão no deserto muçulmano do Norte da África. A obra portuguesa  na Etiópia possa encontrar o favor da graça divina e ainda vir a frutificar na conversão ao catolicismo daquele país.

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Ainda no que toca à extensão da obra cruzada e missionária de Portugal no Índico, ela foi de tal envergadura que a Diocese de Goa (fundada pelos portugueses), pelo valor e extensão do apoio que dava aos trabalhos de evangelização dos pagãos na Ásia e na costa oriental da África, era conhecida como a Roma do Oriente, tamanha era a abrangência da sua atuação, inferior apenas ao da própria Diocese de Roma.

Nos trabalhos da Diocese de Goa pela expansão da Santa Fé católica nos confins da Terra, destacaram-se São Gonçalo Garcia (franciscano) e São Francisco Xavier (jesuíta). Este, de tanto ministrar o batismo aos pagãos, não raro via extenuadas as forças dos braços. Como sinal do máximo dom oferecido à causa de Cristo pelo jesuíta, o Altíssimo quis preservar incorruptos os braços que a tantos aspergiram as santas águas do batismo.

* * *

A célebre memória do espírito cruzado português, do qual é tão devedora a Cristandade (e mesmo a caricatura laica desta chamada de Ocidente), foi brilhantemente enaltecida pelo poeta Alphonsus de Guimaraens nos versos que Mundividência tem gosto de compartilhar com seus leitores:

BONS TEMPOS

Bons tempos da loriga e da cota de malha,
Quando vós, meus avós das montanhas do Minho,
Balestreiros viris, vermelhos do bom vinho,
Ao sarraceno infiel ousáveis dar batalha!

As loiras castelãs, cheirando a rosmaninho,
Diziam-vos: — "Que Deus, na peleja, vos valha!"
E o saio d'armas era a querida mortalha
Que vos ia cingindo o amplo torso de pinho ...

Combates pela Cruz em campos do crescente!
Fidalgos, infanções, ou gente de mesnada,
Volviam para Cristo o olhar piedoso e crente.

E vós, guerreiros, quando a morte alucinada
Surgia, para vê-la erecta, frente a frente,
Inda erguíeis a heril viseira da celada ...






segunda-feira, 29 de abril de 2013

Legitimidade Católica Proscrita (II): O "Desterro" de São Dominguito del Val, Mártir



 



Por Prof. Pedro M. da Cruz. 
(Do site do blog Sociedade Apostolado)



“Da boca das crianças sai um louvor que confunde vossos adversários, reduz ao silêncio vossos inimigos” (Sal. 8,3)


Magnífica luz resplandecia na noite, junto à ribeira do Ebro, em Zaragoza, Espanha. Aquele fenômeno, qual arauto divino, anunciava aos cristãos uma sublime mensagem celeste. Encontrava-se alí, o corpo terrivelmente mutilado dum “anjo de pureza e heroísmo”, exemplo para os homens do mundo inteiro, mas, particularmente, para as crianças do catolicismo.

Era o ano de 1250. A Espanha claudicava sob o jugo dos mouros, e a Igreja de Cristo, Católica, Apostólica e Romana, avançava com vigor, no firme propósito de converter o mundo ao único Deus verdadeiro. Mas, quem seria aquela criança assassinada com tanto requinte de crueldade? Sua cabeça fora violentamente arrancada; e, inclusive, seus pequeninos pés e mãos haviam sido separados do corpo; em seu peito, via-se aberto certo ferimento, muito semelhante ao de Cristo na cruz... quem, quem seria aquela vítima da maldade humana? Dominguito del Val, o lírio do jardim católico de Espanha, o pequeno menino que, desde os céus, dado o sacrifício de sua vida, abençoaria as crianças do mundo inteiro, e todos aqueles que, com fé, o invocassem fervorosamente.

A dias, havia desaparecido da casa paterna; tal fato, deixara todos em desespero. Naquela época, muitos temiam por seus filhos, pois, pérfidos judeus, destilando ódio contra o catolicismo, costumavam praticar todo tipo de ofensas contra a fé cristã, chegando ao extremo de roubar crianças, a fim de que, durante uma cerimônia macabra, pudessem mata-las por crucificação, escarnecendo, deste modo, a Paixão do Senhor. Fora, exatamente o que se dera com Dominguito del Val ...

Pouco tempo depois, havendo sido encontradas as outras partes do corpo, por fatos, igualmente, milagrosos, soube-se de toda a verdade pela boca de Albayuceto, um dos judeus que participaram ativamente do vergonhoso ritual. “Sim, fui eu. Matai-me. A visão do morto me persegue; já não consigo mais dormir”, dissera, tomado pelas lágrimas, aos que o foram aprisionar. A verdade, é que o santo menino alcançará desde os céus a conversão de Albayuceto, que, agora, batizado no catolicismo e, verdadeiramente arrependido, sofrerá, tranquilo, a punição indicada pela justiça humana.

Imaginemos, boquiabertos, a cena estupenda que se  desenrolara no mundo espiritual. São Dominguito del Val, no esplendor de sua glória, tendo em seu corpo fixadas as marcas do martírio, recebendo, frente aos anjos, seu antigo algoz. Sim, porque, no paraíso celeste, reina somente o amor e a mais terna misericórdia. Albayuceto será testemunha do alto grau a que chegou o pequeno santo de Espanha.

Segundo o mesmo judeu, Dominguito del Val fora capturado   quando voltava da catedral de Zaragoza, onde, sabe-se, participava do coro, e servia o altar durante as santas missas. Era o dia 31 de agosto do ano 1250. O santo coroinha possuía, tão somente, sete anos de vida; gozava ainda os albores da infância... o que, não comoveu o pétreo coração de seus verdugos. Arrastado a um lugar secreto, foi coagido a que negasse a fé cristã, porém, resistiu a tal absurdo com todo heroísmo: “Não, isso nunca - disse o menino- não, mil vezes não.” Tomados de ódio contra a firmeza da criança, puseram-se a repetir com ódio os fatos da Paixão. Crucificaram-no, violentamente, numa parede, coroado de espinhos, com três pregos rasgando seus pés e suas mãos. Dominguito tremia de dor e medo, porém, suplicava à Virgem Maria que o ajudasse durante o martírio. Queria morrer como bom cristão. Finalmente, os judeus abriram seu peito com uma lança, sem dó nem piedade. Assim, fora terminado o ritual ...

Que cena estupenda! Ali, fixo na parede, cabeça baixa, qual Cristo na cruz, soltando seu último suspiro, sem, no entanto, haver negado a fé católica! Exemplo glorioso para as crianças e jovens de hoje que, por muito menos, renegam prontamente o que aprenderam aos pés do altar... Possa, São Dominguito del Val, interceder por nós em hora tão dramática na história do cristianismo.

Retirado o inocente da parede, julgaram por bem arrancarem-lhe a cabeça e outros membros, afim de, não só, serem mais discretos no sumiço do corpo, como, também, dificultarem sua identificação. Partes foram lançadas num poço, enquanto que o resto do corpo, como já o demonstramos, fora enterrado, ocultamente, num lugar afastado.
Coube aos céus o anúncio extraordinário de seu esconderijo. Nada como a luz para significar o quão translúcida era a alma inocente daquela criatura. Dali em diante, os milagres se multiplicaram. O selo divino confirmava a santidade heróica manifestada pelo martírio. Suas relíquias repousam até hoje na Espanha, proclamando a todo o mundo a beleza da fidelidade a Cristo e à Igreja. São Dominguito del Val, filho da Virgem Maria, Rogai por nós!



Referências bibliográficas:

· http://www.mercaba.org/SANTORAL/Vida/08/08-31_S_dominguito_del_val.htm

· http://es.wikipedia.org/wiki/D ominguito_de_Val

· http:// www.churchforum.org.mx/santoral/Octubre/2710.htm

As corporações de mestres (patrões) e aprendizes ditavam suas próprias leis trabalhistas



(Do blog A cidade medieval)




“O exercício de cada profissão era objeto de uma minuciosa regulamentação, que existia principalmente para manter o equilíbrio entre os membros da corporação.


Toda tentativa para embaraçar um mercado, todo esboço de entendimento entre alguns mestres em detrimento de outros, toda apropriação de quantidades excessivamente grandes de matérias-primas, eram severamente punidas.

Nada mais contrário ao espírito das antigas corporações do que os grandes estoques, a especulação ou os “trusts”.
 Era também punido o desvio da clientela dos vizinhos pelo abuso da propaganda.
Entretanto a concorrência existia sempre, mas restrita ao domínio das qualidades pessoais.

O único modo de atrair os fregueses era fazer pelo mesmo preço um determinado produto mais bem acabado e mais perfeito que o dos vizinhos.

Os regulamentos lá estavam, para zelar pela boa execução dos trabalhos, apontar as fraudes e punir os transgressores.

Com este objetivo o trabalho deveria, o quanto possível, ser feito ao ar livre, ou ao menos de modo bem visível.

Tudo devia ser mostrado à luz do dia, na qual o malandro não gosta de permanecer, e onde 'maître Patelin' (espertalhão) não consegue enganar o comerciante ingênuo.

Os mestres-jurados ou guardas de ofício cuidavam também da fiel observância dos regulamentos.

Exerciam severamente o direito de visita.

Os fraudadores eram colocados no pelourinho e expostos juntamente com sua má mercadoria durante certo tempo.

Seus companheiros eram os primeiros em apontá-los, fazendo-os sentir o desprezo de seus confrades, ofendidos pela vergonha que jorrava sobre todo o ofício.

Eram colocados à margem da sociedade.

Por isso os falsificadores eram olhados mais ou menos como os cavaleiros perjuros, que teriam merecido a degradação.”


Fonte: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)

Economia e Produção na Idade Média



(Do blog A Cigarrilha de Chesterton)


Tintureiros do Medievo

O regulamento favorecia os mestres e também, pelo menos em princípio, a clientela, visando uma 
produção qualitativaViolar a qualidade era trair tanto o ofício como o cliente. É este o motivo por que os artigos fabricados com desprezo pelas regras eram declarados falsos, tal como a moeda falsa, sendo os infractores quase igualmente perseguidos. Existia um ideal de fabrico, que as regras do ofício protegiam. O culto da «obra bela», da «obra-prima» - aliás tardio -, apesar de não ocultar as facetas menos desagradáveis da realidade, mostra que pelo menos que o factor trabalho era um factor de civilização cristã e não apenas um factor de produção.

Guy FourquinHistória Económica do Ocidente Medieval

domingo, 28 de abril de 2013

Deputado Nazareno Fonteles: Notas



Muito tem sido dito nos últimos dias a respeito do deputado federal Nazareno Fonteles (PT-PI). O interesse pelo parlamentar decorre da recente aprovação no Congresso da  PEC (Proposta de Emenda Constitucional) nº 33, da qual ele é autor. Na PEC em questão está previsto o condicionamento da valia de certas decisões judiciais do Superior Tribunal Federal à aprovação do Congresso Nacional.

Sob o pretexto de corrigir as sucessivas usurpações de competência praticadas pelo Judiciário federal contra as prerrogativas da Câmara dos Deputados, a PEC 33 cria um abuso de mão oposta mediante a subordinação prática do STF ao Congresso Nacional.  Não se sana os existentes desequilíbrios entre os Poderes com a fabricação de outro.


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É curioso notar que o mais evidente e duradouro desequilíbrio entre os Poderes não merece do deputado Nazareno Fonteles nenhuma medida retificadora. Não se tem conhecimento de qualquer iniciativa parlamentar do deputado governista para findar o seqüestro do cronograma do Congresso Nacional por parte dos interesses do Poder Executivo, sobretudo pelo francamente abusivo instrumento das Medidas Provisórias.

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O constitucionalismo liberal de Montesquieu, com a tripartição dos Poderes, tinha a pretensão de criar um sistema de pesos e contrapesos capaz de refrear o apetite concentrador dos aspirantes a tirano. Era a ingênua pretensão de limitar o Estado por obra do mesmo Estado, análoga a confiar a contenção do gangsterismo de Chicago a Al Capone.

Pródigos em tentar construir a casa do governo justo a partir do teto das ficções legais, os liberais deveriam aproveitar os alicerces apriorísticos ao Estado para construir o edifício da governança benévola: os corpos sociais intermediários. Uma estrutura governamental irradiada da representação política da família, da vizinhança, das comunidades confessionais e das associações profissionais a partir do alargamento e instrumentalização da força do município é muito mais eficaz para limitar o governo que arranjadeiras jurídicas postiças. Para melhor apreciação do mérito das questões aqui abordadas, Mundividência sugere aos leitores que procurem conhecer a obra do eminente pensador brasileiro José Pedro Galvão de Sousa (ver aqui).

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O viés totalitário do deputado Nazareno Fonteles, recentemente celebrizado pela repercussão midiática da sua PEC 33, é bem mais antigo que se supõe. Em 2004, o parlamentar apresentou o Projeto de Lei Complementar (PLC) 137, o qual aprovado criaria a Poupança Fraterna, nada mais que a retenção compulsória numa conta bancária (gerida pelo governo) de todo rendimento financeiro pessoal mensal superior ao décuplo da renda per capita mensal brasileira por um prazo de sete anos. Urge acusar e combater os intentos sovietizantes de Fonteles e de seu partido.